Max Coltheart sobre dislexia

Max Coltheart fala sobre dislexia (Professor de Psicologia da Macquarie University –Austrália e director científico do Macquarie Centre for Cognitive Science), conceituado especialista mundial em linguagem:

Jornalista: Pode explicar porque é que é tão difícil fazer um diagnóstico de dislexia?

Max Coltheart: Há várias razões, mas a mais importante é a de que a pesquisa revelou que existem pelo menos 6 subtipos diferentes de dislexia. Assim, o diagnóstico diferencial é crucial (e os diferentes subtipos necessitam de diferentes intervenções). Estes dados científicos ainda não penetraram na prática clínica, onde a dislexia é encarada com uma condição única e homogénea. Isso torna o diagnóstico muito difícil.

Jornalista: Quais poderão ser os sinais que levem os pais e professores a suspeitar de que as crianças têm dislexia?

Max Coltheart: Os diferentes subtipos de dislexia têm sinais diferentes. Os professores deverão ser instruídos para compreender isto. Não podermos esperar que os pais estejam cientes destes factos, mas deverão notar que os sues filhos não são tão bons na leitura do que as restantes crianças da mesma idade. Isso deve levá-los a suspeitar de um problema de leitura.

Jornalista: É possível ser disléxico numa língua mas não noutra?

Max Coltheart: Sim.

Jornalista: Porquê?

Max Coltheart: Alguns exemplos: Um tipo de dislexia de desenvolvimento comum reside numa dificuldade específica na relação letra-som, diagnosticada por um fraco desempenho na leitura de palavras que não existem. A isto chamamos dislexia fonológica. Um criança a aprender a ler português e chinês, que tenha esta forma de dislexia no português, pode não tê-lo no chinês, porque o chinês não se escreve da mesma forma. Portanto é possível ser disléxico em português mas não em chinês.

Outro tipo de dislexia de desenvolvimento consiste na dificuldade em ler utilizando o reconhecimento da palavra toda em vez das regras letra-som. A isto chamamos dislexia de superfície. É diagnosticada pela dificuldade na leitura de palavras irregulares (aquelas que não obedecem às regras letra-som habituais). O inglês tem muitas destas palavras, mas outras línguas, como o italiano, húngaro ou o finlandês não têm nenhumas. Portanto uma criança bilingue que aprenda a ler em inglês e italiano e que apresente dificuldades em inglês, pode não apresentar em italiano.

Jornalista: Nos últimos anos, os diagnósticos de dislexia parecem ter aumentado. Existe alguma justificação?

Max Coltheart: Que prova temos de que os diagnósticos tenham aumentado? Pode ser que sim, mas não tenho dados que o suportem. E estamos a referir-nos ao diagnóstico internacional ou a reportar-nos apenas a alguns países?

Jornalista: Há alguma mensagem que gostasse de deixar aos disléxicos portugueses?

Max Coltheart: Se está à procura de intervenção, primeiro precisa de saber que tipo de dislexia tem.

Fonte: Portal da Psicologia